domingo, 25 de outubro de 2026

Aquarela

Esses dias, voltei a pegar a aquarela. Sentei e, misturando cores, quis criar um tom de roxo. Adoro essa cor. Ela me faz lembrar do violeta e de seu significado esotérico de transmutação: a chama violeta.

Existem momentos na vida em que precisamos passar por essa transmutação, por essa purificação. Em geral, ela acontece após grandes dores e sofrimentos ou quando temos um insight muito significativo.
Comecei, então, desenhando a flor mais simples que conheço. Cinco pequenos pontos que, em contato com a água, formam pétalas com a transparência característica da aquarela. Deixo a água dar forma às pétalas, espalhando o pigmento daquela cor que criei a partir da mistura do azul com o vermelho.
É um desenho simples, assim como a vida se mostra ser. A vida é simples: ela acontece e, muitas vezes, nos surpreende com situações que podem ser encaradas como bênçãos ou desafios.
Depois, diluí o verde para fazer as folhas. Elas trazem contraste ao desenho, mas não são apenas detalhes ou complementos. As folhas fazem parte da natureza da flor, assim como cada coisa na vida complementa nossa existência: os amigos, os familiares, nosso trabalho, nosso lar e tantas outras coisas que formam o conjunto da nossa vida.
Essa reflexão não é sobre ter pintado algumas flores simples e suas folhas, mas sobre como a vida vai pintando nossa existência. Na mistura de cores básicas que dão origem a novos tons, na simplicidade da água, elemento essencial que ajuda a dar movimento e sentido àquilo que se molda diante dos nossos olhos.
Existe, por trás de cada acontecimento em nossa vida, uma certa coerência à qual muitas vezes resistimos. Buscamos dar sentido às coisas, desejamos que determinada forma surja, que aquilo que imaginamos se concretize. Mas a vida, em sua simplicidade, revela sua coerência mesmo quando o que acontece é inesperado.
O inesperado é, na verdade, o desenho da vida nos mostrando que nem sempre aquilo que desejamos vai se materializar. Talvez o mais importante seja acolher o que surge e aprender a contemplar o resultado, seja ele qual for, como algo capaz de nos oferecer um novo direcionamento.
Transmutação é isso: desconstruir certezas e incertezas para construir uma nova forma de olhar. E, nesse novo olhar, descobrir a possibilidade de apreciar aquilo que antes não conseguíamos compreender.
#PensandoAlto


Nenhum comentário:

Postar um comentário