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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Você já agradeceu?

Tem um tempo atrás escrevi um post com esse mesmo título, Você já agradeceu? Escrevi inspirada numa cena que vi no filme, As mães de Chico Xavier, lindíssimo filme, falei da minha cena preferida, que revi esses dias quando assisti novamente ao filme. 
Toda vez que vejo essa cena me emociono, me comovo e me coloco a pensar, pensar nas coisas simples, tão simples e que nos esquecemos, agradecer... 


Agente as vezes reluta em perder, ninguém quer perder aquilo que possui, e isso acontece por não conhecermos a verdade sobre possuir.


"O que é nosso, ou pode ser considerado nosso, é somente aquilo que podemos levar conosco para toda eternidade" (A força do Pensamento - Miramez, Sissi Antunes, p.59).


Um tempo atrás tive oportunidade de conhecer um homem, que trouxe muita alegria para a minha vida, era um homem com um brilho diferente, especial, meus olhos o viam assim, um herói que vinha de longe, um príncipe cheio de virtudes que me salvaria da monotonia em que se encontrava minha vida. Passei certo tempo na companhia desse homem e como era agradável, como era edificante estar com ele, conversávamos longamente, os mais diversos assuntos, filosofávamos, riamos tanto. Descobri com ele um novo idioma, na verdade dois, o espanhol, o italiano; ele me mostrou muito da culinária, muitos sabores novos, me contou sobre culturas diferentes, me despertou o interesse pela leitura, pelos grandes clássicos, pela boa música. Em menos de dois anos eu aprenderá o que não havia conhecido em toda a vida. Mas a vida queria me ensinar muito mais coisas, foi quando esse homem partiu da minha vida, e tive que encarar a triste e dura realidade, aquele príncipe nunca existiu. Foi um criação da minha percepção equivocada e ingenua, aquele homem era mais um lobo em pele de cordeiro; tive que encarar isso, tive que abrir os olhos para todas as mentiras, para toda a conversa fiada, para todas as promessas falsas, para tudo. 
O que ele me ensinou o que aprendi, isso é verdadeiro, mas quem ele era, era uma grande mentira ambulante, um grande ator.
Como qualquer ser humano imperfeito, sofri por enxergar a triste realidade, fui enganada; demorei dar conta da oportunidade tremenda que havia sido presenteada. Agente sempre olha para as perdas, e esquece de olhar os ganhos. 
Hoje me sinto feliz por ter conhecido aquele homem, sinto gratidão pelo que ele me ensinou, pelo que ele me trouxe de bom, por ele ter me feito enxergar a força que eu carregava em mim e que eu desconhecia, força para superar inclusive a verdade sobre ele, não louvo nem admiro o que ele fez, suas mentiras e falsidade, mas agradeço por ele ter passado pela minha vida, por eu ter oportunidade de ver com meus olhos que o mundo tem pessoas as quais não devemos devotar confiança.
As vezes passam pessoas por nossa vida, pessoas as quais nos decepcionam, magoam, ofendem, todas elas são apenas instrumentos para o nosso desenvolvimento, para nossa evolução, para o nosso progresso, quando conseguimos enxergar nossas perdas como conquistas, nos livramos das amarras que empatam nosso crescimento.
Agradeça também por suas perdas, tudo lhe é oferecido como degrau.

quarta-feira, 31 de março de 2010



Era um homem, um homem comum, que um comum destino parecia controlar inteiramente. Um animal doméstico bem treinado. Um dia sentiu um incômodo nos dois ombros, distensão muscular, má posição no trabalho... Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado, inteiro e nu depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decidiu nãocomentar com ninguém, e como não transava freqüentemente com a mulher, conseguiu esconder tudo quase um mes. Fez como via fazer sua mulher: pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ela ajeitava o cabelo, e passou a analisar todo dia aquele fenômeno que, em vez de o assustar, agora o intrigava. Curioso mas sem sofrer - pois não doía -, foi observando aquilo crescer. E pensava: Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande, não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado. Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas enfim se lançavam de suas costas, e viu-se enfeitado com elas, desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e,  acordando, se espojasse sobre as águas. Ficou ali, nu diante do espelho, estarrecido. Agora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar, emprego a cumprir, família a sustentar, filhos a levar para oparque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento. Eram umas asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco larga acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas. Em Certas noites, quando todos dormiam, ele saía para o terraço, tirava a roupa e varava os ares. Sua mulher notou alguma coisa diferente no corpo de seu marido. Estava ficando curvado, tantas horas na mesa de trabalho. Nada mais que isso. Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre melhor confiar desconfiando", daquele seu homem pacato ela jamais imaginaria nada muito singular. - Você vai acabar corcunda desse jeito, aprume-se - ela dizia no seu tom de desaprovação conjugal. As coisas se complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só. E começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou. Na primeira noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando ela começava a apalpar- lhe as costas o par de asas se abriu, arqueou-se unindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou. Apertou-se mais a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo... E abriu suas asas também. (Histórias do tempo, 2000) Amor é tarefa complexa além de tudo porque para amar preciso primeiro me amar. Dentro e fora são reflexos mútuos, como dois espelhos em lados opostos. Vou procurar um amor bom para mim - no qual me reconheço e me reencontro, me refaço e me amplio, me exploro, me descubro - se minha imagem interior me levar a isso. O amor mais que tudo nos revela: manifesta nossas tendências, o que preferimos e escolhemos para nós.
Quero, mereço ser e fazer feliz ou preciso me punir e castigar ao outro; mereço e posso crescer ou me aniquilar.., e ao outro comigo? "Escolha" amorosa pode parecer contradição.
(Liah Luft, Perdas e Ganhos)